sábado, 24 de novembro de 2007

A cidade do Rio Grande, a Revolução Farroupilha e o Tradicionalismo: uma pequena reflexão sobre a nossa sociedade


I

Há na História, algumas datas que nos são propícias à reflexão de nossa cultura e sociedade. Em épocas de festividades, como o 20 de setembro, no Rio Grande do Sul, muitas vezes nós nos esquecemos – ou desconhecemos -, de alguns dos processos históricos que levaram a consolidação dessas datas enquanto marcos históricos e culturais. E a guerra Farroupilha, é uma dessas datas que nos propiciam tal reflexão.



A “Revolução”, que para muitos é um símbolo de nosso modo de ser, permite-nos ainda hoje analisar alguns de seus aspectos políticos e sociais que se mantêm ainda hoje latentes, sob uma forma – às vezes – bastante sutil. Assim, convido o leitor, para que nós tomemos um pequenino trecho da Revolução Farroupilha, para analisarmos essa situação. Para ser mais exato, um trecho de sua história, situada bem no começo desse longo conflito, em meados de outubro de 1835, através de um de seus mais famosos personagens: o charqueador Domingos José de Almeida, para que possamos, no final, refletirmos sobre alguns aspectos de nossa cultura e sociedade atuais.



Analisemos, nesse brevíssimo estudo de caso, a situação de uma das mais importantes cidades ao sul do Império, devido a sua proximidade com o Mar do Prata, e a nossa campanha, no início da guerra farroupilha: a freguesia do Rio Grande de São Pedro.

II

Inicialmente, é preciso termos em mente, que o Rio Grande – tanto a cidade, quanto a província -, se encontravam àquela época, muito mais próximos e cientes da política da região platina, do que da própria política do Império. E este fator, tivera razoável importância à guerra de 1835.
Observando os desenvolvimentos, bem como os resultados das guerras civis argentinas e uruguaias, liderados pelos respectivos caudilhos Manuel Rosas, e Artigas àquela época, os habitantes da província tinham ciência de seus acontecimentos, e muitas vezes participavam deles.



Citando o exemplo de Bento Gonçalves, enquanto um dos principais líderes do movimento farrapo, este, ainda em sua juventude, engrossou as fileiras de Artigas, defendendo o regime Federalista no Uruguai, no ano de 1816, apesar de perceber que os sucessos obtidos pelas tropas luso-brasileiras de D. João VI, sob o comando do sr. Barão de Laguna – o Gal. Francisco Lecor -, conseguissem, ao final daquele ano, neutralizar as ações daquele caudilho. Por conseguinte, Bento Gonçalves fora aos poucos se afastando de Artigas – assim como outros brasileiros que lutaram pela sua causa -, aproveitando a conjuntura que se desenhava, para comprar terras uruguaias, agora administradas pela coroa luso-brasileira.



Assim, enquanto que, no plano econômico, alguns destes campos, agora administrados por brasileiros, serviriam de invernadas para os gados das charqueadas de Rio Grande e Pelotas, o resultado no campo político e social foi um pouco diferente. À época da guerra Farroupilha, muitos dos líderes da Província do Rio Grande moldaram as suas políticas e os seus sistemas de lideranças, principalmente a partir de seus modelos políticos e militares desenvolvidos pelos seus vizinhos platinos.



Dessa forma, podemos perceber que alguns dos principais elementos políticos que foram defendidos pelos lideres farrapos em 1835, já eram de conhecimento comum aos líderes platinos, bem como aos nossos co-provincianos. As repercussões no Prata, acerca da defesa do federalismo, isto é, a defesa da autonomia regional das províncias interioranas, frente ao poder centralizador de algumas províncias mais fortes, geralmente litorâneas, também se manifestaram na nossa província. Fato este que, a partir de um ponto de vista econômico que, àquela época, não constituía nenhuma novidade.



Portanto, para o Rio Grande do Sul à década de 1830, pode-se dizer que a guerra iniciada nesse período, fora um conflito que adaptou alguns modelos do conflito platino, à situação política local, do Império brasileiro, principalmente no modelo de conflito campo versus litoral.



Enquanto que, economicamente, as cidades mais estáveis de nossa província visavam à manutenção de sua união ao Império, era do interesse de suas elites, que estes seguissem a política da Coroa. Este fato, por sua vez, fazia com que as cidades – juntamente as suas elites -, que se encontravam lesadas pela política de nossa realeza, fazerem uso da ameaça de uma política contrária a lógica imperial, para conseguir uma melhora de sua situação.



Tal situação pode ser muito bem apercebida, segundo os discursos de alguns dos participantes do conflito, de algumas das principais cidades da Província. Tanto da parte daqueles que defenderam a separação do Império, no sentido de reforçarem o poder dos caudilhos locais, quanto àqueles indivíduos de outras cidades, que se mantiveram fiéis à defesa do centralismo político e econômico de nossa Coroa. Portanto, pode-se concluir que seriam as elites destas cidades – ao contrário da população, como geralmente se crê -, que escolheriam de fato, qual a bandeira ser defendida, ainda que eventualmente houvessem “dissidentes” desses grupos.



Em um caso emblemático de uma elite local que defendeu a Coroa Imperial, serão os “homens bons” das cidades de Pelotas e do Rio Grande, que à época compunham um setor da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Por conseguinte, eram também os responsáveis pelos “cuidados” para com os separatistas.

III

Quando eclodiu o movimento farroupilha em setembro de 1835, um dos principais líderes separatistas, o charqueador Domingos de Almeida, logo em seguida fora preso, em Pelotas e mandado ser julgado no foro de Rio Grande. No caso destas cidades – como em outras tantas da província -, tentativas de assassinato também eram utilizados, para se eliminar elementos contrários à ordem, ou seja, à Coroa e a sua política. E para tanto, não se mediam esforços para que esses objetivos fossem alcançados. E alguém que passou por estas situações, fora o próprio Domingos de Almeida.



Quando ainda residente em Pelotas, no mês de outubro de 1835, Domingos de Almeida fora “visitado” por três homens – que eram legalistas disfarçados -, e que foram a seu encontro, supostamente a mando de Antonio Netto – posterior “Gal. Netto”. Estes, pedindo-lhe para que se afastassem um pouco do lugar em que Domingos de Almeida se encontrava, à terreira de sua casa junto de suas visitas e familiares, lhe dirigiram a palavra logo em seguida, buscando coletar algumas informações sobre o andamento do levante farroupilha.



Após terem tido uma breve conversa, Domingos de Almeida é convidado a segui-los, quando perguntou ao homem que lhe dirigia a palavra, o seu nome. Este, “disse ser Nico de Oliveira; e havendo entre um e outro salientes desproporções, considerei-me morto, pensando estar na presença dos assassinos do..[1].”. Recebendo o convite para ir ao encontro de Antonio Netto, em uma situação em que ele poderia por a sua família em risco, Domingos de Almeida seguiu os três homens que lhe visitaram. No meio do caminho Domingos é preso, e conduzido à cadeia de Pelotas.



Na prisão, Domingos de Almeida recebera uma intimação, para transladar-se para Rio Grande para ser julgado, sendo imediatamente deportado daquela cidade. Ironicamente, pelo que afirmou o próprio Almeida, o motivo de sua prisão não fora decretada pelo fato de sublevar-se contra a Coroa, mas sim – segundo ele -, “se me ordenava a execução de sublevar a escravatura, indispondo-me, como indispôs com tão atroz e negra calúnia![2]



Esta passagem, que teve o seu desenvolvimento no barco que lho transportava para Rio Grande, Domingos de Almeida nos dá outra informação interessante – fora o fato de, sutilmente negar a liberdade à escravaria de Pelotas -, sobre a sua recepção no seu local de destino, descrevendo-nos a seguinte passagem, quando aportou àquela cidade:

“Tocamos na vila do Norte, e finalmente atracamos na cidade do Rio Grande pelas três horas da tarde; aí creio que me estrangulariam, se a porta do salão da barca não estivesse guarnecida pelos guardas nacionais que me acompanharam: pois foi tal o enxame de parasitas da boa ordem e tal o sussurro, que facilmente se previa as suas danadas intenções, e eu muito particularmente as conheci, quando ao saltar para o escaler que me conduziu à minha prisão uma voz se levantou dizendo – atirem na água de uma vez com esse diabo!”[3]

Como se não bastasse o terror psicológico após uma breve “estadia” em Rio Grande, Domingos de Almeida é levado diretamente para o Rio de Janeiro onde, além de novamente ser ameaçado por uma turba de legalistas, contava agora com interrogadores que faziam uso da manipulação dos registros policiais.



Quando posto ao cárcere, o – provável - delegado e juiz da cidade do Rio de Janeiro, o Dr. José Vieira Braga, e seu escrivão dão início ao interrogatório. Sendo acusado de promover ameaças em um discurso da Assembléia Provincial do Rio Grande, Domingos de Almeida sofreu ainda a acusação de ter se dirigido à Pelotas com uma força armada para tentar fazer uma revolução. Apesar das acusações, Almeida consegue ser repatriado a Província de São Pedro, aportando novamente em Rio Grande, segundo ele, graças à intervenção do major Manuel Marques de Sousa, o futuro Barão e Visconde de Porto Alegre.



Contando agora, com um tempo após a eclosão da guerra farroupilha, em plena viagem de retorno à freguesia do Rio Grande, Domingos de Almeida se depara com uma conjuntura que lhe é um pouco mais favorável, pois já chegara àquela cidade, as notícias de como se deram as primeiras escaramuças entre as tropas imperiais e as tropas farrapas. “O sangue de brasileiros, que brasileiros fizeram derramar nas margens do Arroio Grande, foi anunciado de uma maneira tão estrondosa na cidade do Rio Grande, pelo amigos da ordem, que ainda hoje sua lembrança faz palpitar de indignação o peito mais gelado[4]. Repercussão esta, que lhe garantiu em Rio Grande, uma boa acolhida, pelo menos, por parte de alguns habitantes da cidade.

IV

Dessa forma, enquanto historiador e gaúcho, eu creio que a partir desta pequena narrativa, caberá aqui uma interessante reflexão sobre o nosso “tradicionalismo”, que deveria ser revisitado em épocas como essa na qual se desenvolvem as f’estividades de eclosão de uma das mais sangrentas guerras civis que o Rio Grande do Sul participou.



Em função desse pequenino trecho, percebamos que até mesmo alguns líderes farroupilhas são partidários da manutenção da escravidão, ainda que tenham sido acusados de sublevarem-se contra a mesma. Assim, penso o seguinte: será que não deveríamos rever algumas de nossas concepções acerca de nossos costumes, em função do nosso passado, pois o “separatismo” que tanto foi defendido – e que hoje por nós é bem quisto - durante a “Revolução” Farroupilha fora uma ação de uma elite econômica da nossa região? Será, que não idealizamos demais os “nossos” líderes farroupilhas, e suas ações, pois, como Bento Gonçalves, Antonio de Souza Netto e, o próprio Domingos de Almeida, também eram homens de posses, donos de escravos, de gados e cavalos, que buscavam defender os seus interesses econômicos, frente às ações de outras elites do norte do país, também donas de terras, homens e animais?



E penso também o seguinte: será que quando festejamos a nossa “Revolução” e o nosso tradicionalismo - com tanto orgulho que são-nos tão peculiares -, por acaso nós não festejamos também, uma tentativa de manutenção da escravidão, pois, afinal de contas, o próprio Domingos de Almeida não se sentiu “indisposto com tão atroz calúnia”, ao ser acusado de tentar sublevar a escravaria? Fica a questão em aberto...



Bibliografia:



Sandra Jatahy Pesavento. Farrapos, liberalismo e ideologia. In: A Revolução Farroupilha: História & Interpretação. POa: MErcado Aberto, 1985.
Maria Padoin: A Revolução Farroupilha. In: História Geral do Rio Grande do Sul: vol.2, Império. Passo Fundo: Méritos, 2006.



Fontes:

Domingos José de Almeida. O Cidadão Domingos José de Almeida a seus compatriotas. Porto Alegre: Tipografia de V. F. de Andrade, 1835, rua da ponte,


Notas:

________

[1] Na obra original, a passagem se encontra incompleta. Talvez Domingos de Almeida tenha quisto se referir ao próprio Nico de Oliveira.
[2] Domingos José de Almeida. O Cidadão Domingos José de Almeida a seus compatriotas. Porto Alegre: Tipografia de V. F. de Andrade, 1835, rua da ponte, p.7
[3] Domingos de Almeida. p.7-8. O termo “boa ordem” se encontra grifado na obra original.
[4] Domingos de Almeida, p.10. O termo também se encontra grifado no original.

Um comentário:

Anônimo disse...

E aí Móises, encontrei teu blog pelo orkut do chico. Cara, muito boa tua iniciativa... vou te adicionar no meu blog tb. (felipeludio.blogspot.com)lá é outro assunto,cinema. Enfim, tb. estou estudando a cidade, mas já no período da republica, estou trabalhando com a chegada dos ingleses na fase de crescimento da cidade e os novos códigos sociais que estes trouxeram, aqui não da pra colocar tudo, mas quem sabe faríamos uma rotatividade de textos no blog?? (já to querendo meter meu bedelho...) inté